Guerra no Oriente Médio fecha fábrica de fertilizantes na Bahia e deixa 30 trabalhadores sem emprego

Unidade do Grupo Mosaic em Candeias paralisa operações após bloqueio do Estreito de Ormuz cortar o fornecimento de enxofre; ao todo, cerca de 500 funcionários são demitidos no Brasil.

O conflito no Oriente Médio chegou ao mercado de trabalho baiano. O Grupo Mosaic, uma das maiores produtoras mundiais de fertilizantes, anunciou na última quarta-feira, 8, a paralisação das atividades de sua unidade em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, com a demissão imediata dos 30 funcionários do local.

A causa declarada pela empresa é a escassez de enxofre, matéria-prima fundamental na produção de fertilizantes fosfatados. Desde o início do conflito militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o Estreito de Ormuz — passagem estratégica no Golfo Pérsico — ficou praticamente bloqueado para o transporte marítimo. Antes do início da guerra, em 28 de fevereiro, quase metade do enxofre transportado por via marítima no mundo passava habitualmente pelo estreito.

A unidade de Candeias não é a única atingida. A Mosaic anunciou que reduzirá suas operações de fosfato no Brasil por causa das restrições globais no fornecimento de matérias-primas que vêm pressionando os custos de produção, com a suspensão das operações de mistura em Candeias (BA) e Catalão (GO). Segundo informações divulgadas pelo jornal A Tarde, ao todo serão afetadas seis unidades do grupo nos estados do Paraná, Goiás e Minas Gerais, somando cerca de 500 demissões em todo o país.

O impacto no setor é significativo para a Bahia. De acordo com dados da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), há 27 empresas de fertilizantes no estado, empregando cerca de 2.300 trabalhadores. Para o diretor do Sindiquímica Bahia, Giovani Souza, o setor já vinha acumulando pressão antes mesmo das demissões na Mosaic: “Estruturalmente, o setor de fertilizantes é um grande importador de matéria-prima, sendo muito afetado pela dinâmica externa”, afirmou, segundo o A Tarde.

O cenário global reforça a gravidade da situação. O Estreito de Ormuz concentra o tráfego de cerca de 30% da ureia mundial e quase metade do enxofre. Com a Rússia também fora do mercado de enxofre — por conta da suspensão das exportações até o fim de junho de 2026 —, mais da metade da oferta global do produto enfrenta restrições. O country manager da Mosaic Fertilizantes, Eduardo Monteiro, afirmou que são necessários cerca de 400 quilos de enxofre para produzir uma tonelada de fertilizante fosfatado, o que tornou a produção inviável economicamente.

A situação também não tem solução rápida à vista. Segundo Willis Thomas, analista-chefe de fertilizantes da CRU, “os volumes de fertilizantes passando pelo estreito não retornarão aos níveis pré-conflito tão cedo”, e “mesmo no melhor cenário, agosto é a data mais próxima em que se prevê uma retomada significativa do tráfego”.

O Brasil, que depende da importação de 85% dos fertilizantes que usa para enriquecer o solo, é um dos países mais expostos a essa crise. O impacto segue uma cadeia clara: tensão geopolítica, gargalo logístico e alta de custos no campo. Os preços dos fertilizantes dispararam mais de 50% e já superam médias históricas.

Em relação aos trabalhadores demitidos em Candeias, segundo informações divulgadas pelo A Tarde, a Mosaic negociou com o sindicato um pacote social que inclui a manutenção do plano de saúde por três meses e suporte psicossocial, além do cumprimento do aviso prévio legal e das cláusulas da Convenção Coletiva do Trabalho. A empresa também garantiu prioridade de recontratação caso as operações sejam retomadas. O Sindiquímica Bahia informou que acompanhará todo o processo para garantir o cumprimento dos direitos trabalhistas.

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